Review: IT - A coisa

Baseado num livro do cultuado escritor de terror Stephen King, It - A coisa, conta a história de um grupo de adolescentes de uma pequena cidade que há anos sofre com os ataques de uma estranha criatura com a aparência bizarra de um palhaço. Para se livrar desse mal, os jovens terão de superar os seus medos enquanto descobrem o valor de uma amizade verdadeira.  








Título original:  It
Gênero: Terror\Suspense
Origem: EUA; Ano: 2017
Duração: 2h15min

Elenco: Bill Skarsgård, Jaeden Lieberher, Finn Wolfhard, Jack Dylan Grazer, Sophia Lillis, Jeremy Ray Taylor, Wyatt Oleff, Chosen Jacobs
Diretor: Andy Muschietti
Roteiro: Stephen King

Sinopse: Quando estranhos desaparecimentos começam a ocorrer na cidade de Derry, um grupo de crianças se une para atacar Pennywise, um palhaço malvado cuja história de assassinato e violência remonta há séculos.

Prós e Contras:
+ o roteiro acerta ao focar a trama nos adolescentes e aprofundar o seu relacionamento
Bill Skarsgård está ótimo como Pennywise, assim como o restante do elenco 
+ clima nostálgico que remete a filmes dos anos 1980, misturando humor, aventura e terror, além de uma trilha sonora contagiante
- efeitos exagerados, longa duração, vilão com poderes ilimitados 





Crítica

Apesar de eu já ter lido alguns livros e visto alguns filmes bons e ruins baseados nas obras de Stephen King, confesso que fui surpreendido desta vez.

Fui assistir IT: A Coisa sem ter lido o polêmico livro que o inspirou, um calhamaço de quase mil páginas, e nem visto o filme antigo feito para TV, que marcou a infância de muita gente, que até hoje tem medo de palhaços por causa dele. E confesso que gostei bastante.

A trama, inspirada no livro de King, gira em torno de um grupo de pessoas que decide enfrentar um mal antigo que atende pelo nome de Pennywise, o palhaço dançarino. Essa criatura tem o poder sobrenatural de criar ilusões a partir dos maiores medos de suas vítimas, para então devorá-las. Como o maligno palhaço geralmente ataca crianças e adolescentes, o primeiro contato dos protagonistas com ele acontece nesse período, que é retratado no filme. 

Por se tratar de uma obra de terror com crianças, situada numa pequena cidade durante a década de 1980, as comparações com a série de TV Stranger Things são inevitáveis. E realmente há um clima de amizade e nostalgia que lembra muito a série da Netflix. E nem poderia ser diferente, uma vez que a própria série, reconhecidamente, também se inspirou nas obras de Stephen King. 

Mas em IT a turminha é um pouco mais velha, entre 12 e 13 anos, e as situações em que eles se envolvem são um tanto mais adultas também, inclusive com cenas fortes de bullying e insinuações de violência doméstica e abuso sexual praticado contra os menores.

Esses traumas afetam bastante a personalidade dos jovens e vale notar que nenhum adulto é mostrado com "bondade" nesse filme, são todos pervertidos, possessivos, egoístas, agressivos, insensíveis... defeitos esses que refletem a sociedade podre que habita a cidade, e por sua vez, são refletidos nos atos cruéis do palhaço assassino. 

Mas apesar desse clima pesado, o filme está longe de se perder no drama, e entre uma e outra cena de terror, há vários alívios cômicos protagonizados pela turma de amigos, além de romance, brigas e grandes gestos de amizade.

São nesses momentos que podemos conhecer, e nos apegar, a cada um dos variados tipos que formam o grupo, do líder inseguro e gago, ao garoto com mania de doenças, o menino novo apaixonado pela garota bonita, o garoto que só fala palavrão, e a menina desajustada que entra no grupo de "perdedores" por acidente e acaba se tornando um membro valoroso da equipe.

E essa profundidade dada a maioria dos personagens principais é um dos maiores acertos do filme, pois mesmo diante dos clichês e da improvável coragem diante do perigo, acabamos temendo por eles e querendo que eles consigam sobreviver até o final. 

Mas esse não é o único medo presente no filme. IT não é do tipo que te prega sustos o tempo todo, mas a tensão está quase sempre no ar e atinge o seu auge nas cenas em que o palhaço Pennywise aparece. O ator realmente se dedica a dar vida ao personagem, e nos momentos em que há pouca computação gráfica, seu talento se sobressai. A cena inicial, uma das melhores do filme, é aterrorizante e se apoia basicamente no suspense e na expectativa do encontro entre o palhaço e o menino. 

Infelizmente nem todos os demais encontros são tão inspirados e a "obrigação" de mostrar o medo de cada um, em sequencias que lembram o clássico A Hora do Pesadelo, se transforma numa experiência um pouco repetitiva e até cansativa, se levarmos em conta que o filme tem mais de 2 horas. É nesses trechos também que o uso de efeitos especiais se torna exagerado (porque o palhaço precisa vibrar enquanto corre?) e as "regras" do antagonista causam confusão. Afinal, qual a extensão dos seus poderes? Quem pode vê-lo? Ele precisa estar no local para atacar? Parece algo sem importância à princípio, mas se pensarmos em outros vilões do gênero, de Freddy Krueger à Jason, ou Samara, todos possuem regras e limitações que servem para o expectador se sentir seguro, ou não, quanto ao futuro dos personagens. E Pennywise parece ser capaz de fazer qualquer coisa, desde que mantenha suas vítimas com medo.

Mas tirando uma ou outra cena desnecessária, o filme segue num ritmo interessante e o desfecho é bom, ainda que deixe algumas dúvidas sobre as origens e a natureza dos poderes do palhaço. Essas questões possivelmente serão melhor abordadas na já anunciada continuação, que se passará cerca de 30 anos depois.

A direção de Andy Muschietti, que já havia feito um ótimo trabalho em Mama, é excelente, mantendo a tensão constante e tirando o máximo de interpretação do elenco principal. O som e a trilha sonora também merece destaque, ajudando a recriar o clima de nostalgia oitentista.

Conclusão: Mesmo com o uso exagerado de computação gráfica em algumas cenas e uma duração acima da média para um filme de terror, IT: A Coisa, se destaca como uma das maiores surpresas do ano, e um dos melhores do gênero nos últimos tempos. Contando com um elenco talentoso e uma história que explora muito bem a amizade adolescente e o clima estranho e nostálgico dos anos 1980, o filme deve agradar em cheio aos fãs de Stephen King, de Stranger Things e a todos que curtem um suspense com doses de terror sobrenatural. Altamente recomendado. 




Galeria










Curiosidades

* O livro IT, que inspirou este longa, foi publicado em 1986 e teve sua primeira adaptação num filme feito para a TV em 1990. A trama do livro se divide em duas partes: a primeira é quando os protagonistas ainda são crianças e a segunda se passa quando eles já estão adultos e voltam para Derry. Muitos palhaços chegaram a perder o emprego devido a essa obra, e isso fez com que Stephen King se desculpasse publicamente.

* Derry, a cidade fictícia do filme, também foi o local dos acontecimentos de outros livros de Stephen King, como Insônia, Saco de Ossos e O Apanhador de Sonhos.


* Bill Skarsgård, que interpreta o palhaço Pennywise, não conheceu nenhum dos atores adolescentes até o início das filmagens. A ideia era garantir que eles se assustassem de verdade durante o filme. E parece que funcionou.

* Com apenas 3 semanas em cartaz, IT: A Coisa já havia se tornado o filme de terror com maior bilheteria de todos os tempos, superando o antigo recordista O Exorcista de 1974.





Resenha produzida e publicada por Marcelo Delmanto em 07/10/2017.